Cinco mitos sobre TDAH

Atualizado: 30 de Ago de 2020


Imagem: Teresa McLaren


O transtorno déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos mais comuns da infância e adolescência e frequentemente persiste nos adultos. Ao mesmo tempo, ele é também alvo de vários mitos, que questionam desde se ele existe mesmo até se ele continua por toda a vida. Neste artigo, vamos conversar sobre cinco dos principais mitos que envolvem o transtorno.




1. TDAH não existe, é algo que todo mundo tem


O TDAH é caracterizado por três manifestações centrais: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Essas manifestações são distribuídas na população geral em um contínuo: alguns têm mais, outros, menos. Pessoas com TDAH estão num extremo desse contínuo, em que a intensidade dos sintomas traz prejuízos na convivência com os outros ou no desempenho na escola ou no trabalho.


Dito de outra forma, o fato de todo mundo poder apresentar desatenção, hiperatividade ou impulsividade, em maior ou menor grau, não exclui o fato de que, em algumas pessoas, essas manifestações são mais intensas, constantes, desencadeadas por pequenos gatilhos ou associadas a outros sintomas. Essas pessoas merecem uma avaliação cuidadosa e devem ter acesso à possibilidade de tratamento que reduza o sofrimento associado ao quadro.


Finalmente, é importante lembrar que o diagnóstico de TDAH envolve um prejuízo em contextos diferentes: em casa, na escola, no trabalho, com familiares, com amigos, e assim por diante. Isso ajuda a diferenciar o transtorno de um quadro de falta de atenção restrita à sala de aula, mais relacionado com um método de ensino pouco adequado.




2. Como pode alguém ter TDAH e ficar horas jogando videogame? Na verdade, é preguiça ou falta de força de vontade


Quase todas as pessoas, inclusive as com TDAH, conseguem prestar atenção durante longos períodos se estiverem motivadas. Motivação é algo bastante explorado nos videogames, por exemplo, porque são construídos a partir de desafios que, uma vez completados, trazem uma recompensa. Assim, mesmo uma pessoa com TDAH pode passar horas em frente a uma tela, jogando, sem grandes dificuldades.


Os mecanismos associados à atenção precisam ser ativados em um grau mínimo para funcionarem. Pessoas sem TDAH atingem essa ativação com mais facilidade, fazendo com que elas consigam prestar atenção até mesmo em aulas que não são muito interessantes. Por outro lado, pessoas com TDAH têm um prejuízo nos mecanismos associados à atenção e precisam de um grau de ativação maior, o que, sem tratamento, só acontece se elas estiverem bastante motivadas - como diante um videogame.


Esses mecanismos não podem ser controlados de forma voluntária. Isso significa que as dificuldades de uma pessoa com TDAH não são sua culpa ou acontecem por preguiça ou falta de força de vontade. Pensar assim seria como pedir a uma pessoa com dificuldade visual para se esforçar mais para ver melhor.


Outro ponto interessante é que não só a motivação, mas também as situações estressantes podem melhorar nossa capacidade de focar e manter a atenção. Sob pressão, como diante de um prazo apertado ou no fim do ano letivo, há uma descarga de noradrenalina, substância relacionada ao estresse, numa área do cérebro conhecida como córtex pré-frontal. Essa descarga também é capaz de aumentar a ativação dos mecanismos associados à atenção, de forma que mesmo pessoas com TDAH podem não apresentar grandes dificuldades lidando com situações estressantes.




3. TDAH é um transtorno da sociedade moderna


O mundo de hoje nos traz uma pressão grande por produtividade e foco, ao mesmo tempo em que nos oferece estímulos constantes capazes de nos distrair. Por isso, existe uma ideia de que o TDAH seria um transtorno causado pelo nosso modo de vida atual.


Apesar disso, nas últimas três décadas, vários estudos têm mostrado que o TDAH é mais comum em membros de uma mesma família e que a genética tem um papel importante no surgimento do transtorno, o que fala contra a percepção de que ele é algo específico do nosso tempo. Além disso, há relatos descrevendo quadros semelhantes ao que hoje chamamos de TDAH que remontam até à Grécia Antiga.


Um estudo muito importante, publicado em 2007, avaliou a frequência de TDAH em todos os continentes. A principal conclusão é que a prevalência do transtorno é semelhante mesmo entre países muito diferentes culturalmente, o que reforça que ele é independente da cultura. Outras pesquisas mostram que, nos últimos anos, mesmo com as mudanças trazidas por novas tecnologias, não tem havido aumento na frequência de TDAH, embora às vezes a gente possa pensar o contrário.


Por outro lado, o entendimento atual sobre o TDAH é que ele é determinado por uma interação da genética com o meio em que a pessoa vive. Assim, um indivíduo com grande predisposição genética pode manifestar o transtorno independentemente de suas condições de vida, enquanto outro indivíduo, com baixa predisposição genética, pode não apresentar sintomas mesmo em um ambiente que demande muito de sua capacidade de focar e manter a atenção. Dessa forma, as exigências do mundo moderno podem não ser a causa, mas sim um gatilho que desencadeia um quadro de TDAH em pessoas com predisposição genética.




4. TDAH só acontece em crianças


Antigamente, acreditava-se que o TDAH era um transtorno da infância e que, com o crescimento e as consequentes modificações biológicas, ele desapareceria. Hoje em dia, estudos mostram que o TDAH pode estar presente em adultos, inclusive naqueles com mais de 60 anos, com uma prevalência em torno de 2,8%.


As características do transtorno costumam ser diferentes nos adultos. Desatenção e procrastinação são mais evidentes, e manifestações como impulsividade e dificuldade na regulação emocional são mais importantes que a hiperatividade. Isso faz com que o diagnóstico em adultos também seja diferente daquele considerado para as crianças.




5. Uma vez TDAH, sempre TDAH


Não existe consenso sobre a taxa de persistência do TDAH nos adultos, em relação à infância. Sabe-se que até metade das crianças com TDAH continuarão apresentando sintomas ao atingirem a idade adulta.


Isso depende de vários fatores, como gravidade do quadro na infância e presença de outros transtornos mentais, inclusive nos pais. Depressão materna ou paterna, por exemplo, está associada a continuidade do TDAH na idade adulta.


Por outro lado, uma proporção significativa das crianças com TDAH não terá o transtorno no futuro. Uma hipótese que explica isso é que, com o crescimento, ocorre maturação das áreas cerebrais relacionadas ao quadro.



Como conversamos, o TDAH é de fato um transtorno, está associado a várias dificuldades e pode trazer grande sofrimento. No entanto, com o tratamento adequado, é possível atingir um ótimo controle do quadro. O médico psiquiatra poderá fazer uma avaliação completa e indicar o melhor tratamento em cada caso.

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