Clonazepam (Rivotril) e medicamentos semelhantes causam demência?


Imagem: slauz, Alzheimer


Os benzodiazepínicos são uma das classes de medicamentos mais usadas no mundo; dela fazem parte substâncias como o alprazolam, o diazepam e o clonazepam, cujo principal nome comercial é o Rivotril. Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 3% dos adultos têm uma prescrição de benzodiazepínicos, e a taxa aumenta para quase 9% entre aqueles com 65 a 80 anos. No Brasil, a prevalência do uso por idosos varia entre 6,1 e 21,7%, chegando a 32% em estudos internacionais.


Os benzodiazepínicos são muito prescritos para quadros de insônia e ansiedade. No entanto, estão associados a vários efeitos perigosos, como quedas, fraturas e acidentes de trânsito. Além disso, podem gerar dependência e, se interrompidos abruptamente, provocar síndrome de abstinência. Por causa desses riscos, os benzodiazepínicos não são recomendados para idosos, e, para o restante da população, seu uso deve ser por curto prazo (até três meses).


Um outro motivo para essas precauções é que vários estudos sugeriam uma associação entre o uso de benzodiazepínicos e um aumento no risco de demências, como a doença de Alzheimer. No entanto, não se sabia se a associação era causal, ou seja, se os benzodiazepínicos causavam demência. De fato, após uma única dose desses medicamentos, ocorrem prejuízos temporários da nossa cognição, o que inclui dificuldades com a atenção e a memória, mas era incerto se o uso a longo prazo poderia tornar esses prejuízos permanentes. Um estudo recente, publicado em 2016, mostrou que não.


O estudo em questão acompanhou 3434 pessoas nos Estados Unidos por um tempo médio de sete anos. Algumas haviam usado benzodiazepínicos nos últimos dez anos, em diferentes doses, e outras não haviam usado. Viu-se que as pessoas que usaram quantidades maiores dos medicamentos não tiveram aumento no risco de demências, nem tiveram uma progressão mais rápida do declínio cognitivo que acontece normalmente com o envelhecimento. Essa conclusão fala fortemente contra a hipótese de que o uso de benzodiazepínicos causa demências.


Uma consideração importante levantada pelo estudo é que quadros demenciais podem começar com manifestações como insônia e ansiedade, que, por sua vez, são comumente tratadas com benzodiazepínicos. Fazendo uma analogia, imagine que você esteja com febre, tome um antitérmico (dipirona, por exemplo) e, alguns dias depois, descubra que está com dengue. Não seria razoável dizer que você teve dengue por causa da dipirona, certo? Muito provavelmente, você já estava com dengue e tomou a dipirona para combater um dos sintomas iniciais da doença.


Através do mesmo raciocínio, podemos entender que as pessoas que fizeram uso de um benzodiazepínico e depois foram diagnosticadas com demência poderiam já estar com o quadro e tomaram a medicação para tratar suas manifestações iniciais (como insônia e ansiedade), num momento em que ainda não tinham diagnóstico definido. É como se a demência tivesse levado ao uso de benzodiazepínicos, e não o contrário. Em pesquisa científica, isso é o que chamamos de viés de causalidade reversa.


Outro ponto é que transtornos do sono e de ansiedade estão associados a alterações no cérebro que também acontecem na doença de Alzheimer, como o acúmulo de uma proteína chamada de beta-amiloide. Assim, é possível que insônia e ansiedade na idade adulta (e não os benzodiazepínicos usados em seu tratamento) sejam um fator de risco para o desenvolvimento de doença de Alzheimer – mais um motivo para o tratamento adequado desses transtornos.


Apesar da conclusão do estudo, existem outros riscos associados ao uso de benzodiazepínicos, como já falamos. Tais riscos devem ser pesados frente aos potenciais benefícios e isso deve ser discutido com cuidado com seu médico, evitando a automedicação. De forma geral, continuam válidas as recomendações de que idosos evitem os benzodiazepínicos e de que, para o restante da população, seu uso não ultrapasse três meses.

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