Como a Medicina Tradicional Chinesa entende a insônia?

Atualizado: 8 de Dez de 2020


Imagem: O mestre taoísta Chuang Tzu e o sonho da borboleta (autor ignorado)


A insônia afeta grande parte da população ao redor do mundo e está associada a várias doenças, como hipertensão, diabetes, infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Ela é também um fator de risco para diferentes transtornos psiquiátricos. Além disso, no caso da depressão, por exemplo, a insônia pode ser uma manifestação inicial ou um sintoma residual, que persiste mesmo após tratamento adequado, e isso aumenta a chance de recorrência do transtorno.


Segundo a literatura científica Ocidental, a insônia é resultado de diferentes processos patológicos que têm como via final comum um estado de hiperativação do sistema nervoso. Por outro lado, do ponto de vista da Medicina Tradicional Chinesa, é o Coração (ou Xin, em chinês) o principal responsável pela quantidade e qualidade do nosso sono.


Isso porque o Coração - escrito com inicial maiúscula para diferenciar o órgão anatômico do conceito mais amplo da Medicina Tradicional Chinesa, que o entende como um sistema funcional - abriga a Mente (ou Shen), da qual depende o sono. A Mente, por sua vez, é instável e precisa se ancorar na matéria do corpo, cuja base é formada pela Essência (ou Jing), pelo Sangue (ou Xue) e pelo Yin (oposto ao Yang, que se refere ao que é imaterial e rarefeito). Se o Coração for afetado por fatores patogênicos ou estiver deficiente em Sangue ou em Yin, podemos ter dificuldade para dormir.


No pensamento oriental, há uma estreita relação entre corpo e Mente. A desarmonia dos nossos Órgãos Internos afeta a Essência e o Sangue, fazendo com que a Mente não consiga se ancorar e produzindo insônia.


Além da Mente, outra faculdade mental-espiritual envolvida no sono é a Alma Etérea (ou Hun), que está abrigada no Fígado, para o qual retorna à noite. Ela é particularmente responsável pelos sonhos. Se houver deficiência de Sangue ou Yin no Fígado, a Alma Etérea fica sem abrigo e vagueia durante a noite, produzindo um sono agitado, com muitos sonhos. A Alma Etérea também pode ser afetada por fatores patogênicos como esforço físico ou mental excessivo, que prejudicam a formação de Sangue.


Outro responsável pelo sono são os Rins. Eles abrigam a Força de Vontade (ou Zhi), que controla a memória e também abriga a Mente. Deficiência nos Rins ou na Força de Vontade leva a um sono interrompido por despertares noturnos.


Todo esse entendimento nos permite fazer algumas considerações interessantes. Primeiro, ele explica por que os idosos dormem menos: com o envelhecimento, há uma diminuição fisiológica do Sangue e, consequentemente, uma menor necessidade de sono. Segundo, ele justifica a recomendação da Medicina Tradicional Chinesa que diz que a melhor posição para dormir é sobre o lado direito. Assim, o coração fica mais alto, permitindo a livre circulação do Sangue, e o fígado fica mais baixo, permitindo que ele acumule Sangue e possa abrigar a Alma Etérea.


Também é possível compreender o sono da perspectiva dos Meridianos do corpo por onde circula o Qi, ou "energia vital" (os meridianos são canais que conectam os pontos de Acupuntura e estão associados aos nossos Órgãos Internos). O Qi circula no Yin durante a noite e no Yang durante o dia. Se ele permanece no Yang à noite, os olhos ficam abertos e há insônia. Segundo O Clássico do Imperador Amarelo, um dos textos fundamentais da Medicina Tradicional Chinesa:


"O Yin e o Yang dos Meridianos do Calcanhar se interconectam [...] e se cruzam no canto dos olhos. Quando o Yang está em excesso, os olhos ficam abertos; quando o Yin está em excesso, os olhos se fecham."


Por essa razão, no tratamento da insônia com Acupuntura, usamos pontos dos Meridianos do Calcanhar (além dos pontos do padrão de desarmonia específico identificado), que se cruzam no canto dos olhos e controlam sua abertura e fechamento.


Podemos agora passar aos processos que levam à insônia segundo o pensamento oriental. Como em muitas outras condições, eles envolvem a ocorrência de um excesso ou de uma deficiência. A deficiência pode ser de Sangue ou Yin, que destitui a Mente e/ou a Alma Éterea de seu abrigo (caso a deficiência afete o Coração ou o Fígado, respectivamente); e o excesso ocorre quando elas são agitadas por um fator patogênico.




Estresse emocional


Raiva, frustração, ressentimento e irritação estão relacionados à formação de calor no Fígado, o que agita a Alma Etérea e a deixa vagando à noite. Sentimento de culpa afeta os Rins e, por extensão, a Essência e a Força de Vontade, neles armazenadas. Isso destitui a Mente de seu abrigo e leva à insônia.


Preocupações excessivas, tristeza, mágoa e culpa podem levar a uma estagnação do Sangue no Coração. Isso o obstrui, dificultando a ancoragem da Mente e produzindo insônia. Preocupação em excesso também se associa ao Baço e à sua função de produção do Sangue (dentro da teoria da Medicina Tradicional Chinesa). A deficiência de Sangue, como vimos, também afeta o Coração e pode alterar o sono.


Estresse relacionado ao excesso de trabalho pode levar a uma deficiência do Yin dos Rins e, por consequência, do Coração (na Medicina Tradicional Chinesa, os Rins são associados ao elemento Água e o Coração, ao elemento Fogo; os dois se controlam mutuamente). Esse padrão é conhecido como "incoordenação entre Coração e Rins".




Timidez


Outra condição que pode causar insônia é a fraqueza constitucional da Vesícula Biliar, que tem entre suas manifestações um temperamento tímido, medroso, indeciso, pouco assertivo (em chinês, ter uma "grande vesícula" significa ser corajoso, e uma "pequena vesícula" é sinônimo de covardia). A Vesícula Biliar (junto com o Fígado) corresponde ao elemento Madeira, que dá origem ao elemento Fogo - associado, como dito acima, ao Coração; diz-se que a Vesícula Biliar e o Fígado são a mãe do Coração. Assim, a fraqueza da Vesícula Biliar leva à fraqueza do Coração, produzindo insônia (principalmente na forma de um despertar precoce pela manhã).




Alimentação irregular


Comer demais ou ter uma dieta rica em alimentos quentes (carnes vermelhas, especiarias, bebidas alcoólicas) podem levar à formação de calor no Estômago e, por causa da íntima relação desse Órgão com o Coração, produzir insônia. Comer demais também pode provocar retenção de alimentos no Estômago, o que é uma causa frequente de alterações do sono nas crianças.




Pós-parto


A hemorragia que ocorre durante o parto induz uma deficiência de Sangue no Fígado, e a Alma Etérea fica sem abrigo. Como o Fígado é a mãe do Coração, ocorre também deficiência de Sangue neste Órgão, fazendo com que a Mente fique desabrigada.




Atividade sexual excessiva


O excesso de atividade sexual consome a Essência armazenada nos Rins, que ficam num estado de deficiência. Isso afeta a Força de Vontade, que não consegue abrigar a Mente e leva, então, à insônia.



Como vimos, em contraste com o pensamento Ocidental, que associa a consciência (e, assim, o controle do sono) ao nosso cérebro, a Medicina Tradicional Chinesa atribui ao Coração um papel central. Essa visão é interessante porque conversa um pouco com nosso saber popular. O Clássico do Imperador Amarelo diz que:


“O coração é o soberano de todos os órgãos e representa a consciência do ser. É responsável pela inteligência, sabedoria e transformação espiritual.”


Para quem sofre com insônia, talvez valha a pena observar o que o pensamento Oriental traz a respeito e, principalmente nos casos que não responderam bem a outros tratamentos, buscar o auxílio da Acupuntura.

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