Coronavírus: estamos todos com TOC de limpeza?


Imagem: Hendrick ter Brugghen, Pilatos lavando as mãos (detalhe)


A pandemia do novo coronavírus (Covid-19, sigla do inglês Coronavirus Disease 2019) tem impactado negativamente a saúde mental da população, desencadeando ou piorando condições psiquiátricas específicas, mas nenhuma tem sido tão afetada como o transtorno obsessivo-compulsivo, ou TOC, como é mais conhecido. Entre suas possíveis manifestações, a mais comum envolve o medo de contaminação e a compulsão por limpeza. Ao mesmo tempo, justamente esses comportamentos têm se tornado mais comuns com a Covid-19, em virtude de seu alto contágio e difícil controle, das preocupações da população em geral, alimentadas por notícias às vezes sensacionalistas, e das recomendações sanitárias, que incluem lavar as mãos com frequência e evitar o contato físico com outras pessoas e com superfícies possivelmente contaminadas. Cabe então a pergunta: se os comportamentos de limpeza são apoiados pelas autoridades de saúde, qual o limite entre a precaução e o TOC? Estamos todos desenvolvendo TOC de limpeza?


Antes de tudo, precisamos entender o que é TOC e, claro, o que são obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens que vêm à nossa mente e são experimentados como algo indesejado e angustiante, por exemplo, ideias sobre contaminação (“minhas mãos estão sujas”) ou dúvidas (“esqueci de trancar as portas”). As compulsões são comportamentos (como lavar as mãos) ou atos mentais (como repassar mentalmente se trancou todas as portas de casa) repetitivos que visam reduzir a angústia associada às obsessões ou satisfazer regras rígidas e, em geral, absurdas (por exemplo, contar até determinado número). O TOC é caracterizado por obsessões e/ou compulsões e tem alguns padrões de sintomas, sendo que o mais comum, como já dito, envolve o medo de contaminação e a compulsão por limpeza. Nesse caso, o indivíduo passa horas preocupado com a possibilidade de contrair uma doença infecciosa, evitando potenciais contaminantes (não toca certas superfícies e diminui o contato social) e se envolvendo em comportamentos compulsivos de limpeza (toma banhos longos, gasta muito tempo lavando e desinfetando as mãos e, não raro, causa dano à própria pele). Com frequência, esses comportamentos assumem a forma de um ritual: é preciso seguir uma sequência específica de ações, ou elas devem ser repetidas um certo número de vezes (por exemplo, lavar primeiro o polegar, depois os outros dedos e o espaço entre eles, então os punhos etc.).


Sabe-se que o TOC afeta até 3,1% da população geral, mas poderá haver aumento no número de pessoas afetadas pelo transtorno. Tudo ainda é muito novo, e não há estudos suficientes. Não sabemos, por exemplo, se o aumento será restrito às pessoas que já tinham maior risco de TOC, mas que não o desenvolveriam se não tivessem sido expostas à pandemia. Considerando então esse possível aumento, como determinar quanto de lavagem de mãos é suficiente neste momento? Até que ponto isso seria uma reação racional, exagerada ou – pergunta ainda mais difícil – uma piora no quadro de pessoas já em tratamento de TOC?


Para responder a essas perguntas, precisamos considerar três aspectos: o tempo dedicado às preocupações com contaminação e medidas de limpeza; o sofrimento associado a elas; e o grau de sua interferência na vida do indivíduo. As preocupações podem envolver o medo de se contaminar, de contaminar outras pessoas ou de ter uma infecção não diagnosticada.


Em relação ao tempo, um parâmetro poderiam ser as orientações do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), que recomendam lavar as mãos com água e sabão por 20 segundos (você pode ver um vídeo ensinando a técnica correta aqui [em inglês]); assim, qualquer tempo maior que esse pode ser excessivo e compulsivo. Também é importante notarmos que, no TOC, as obsessões se expandem e ocupam grande parte do dia a dia do indivíduo, que não consegue equilibrar atividades que lhe sejam prazerosas e atividades que lhe deem uma sensação de controle, como uso da internet e consumo de notícias. Recomenda-se não ultrapassar uma hora por dia se informando sobre a pandemia (meia hora pela manhã e meia hora à noite) e buscar fontes confiáveis; o site da Organização Mundial da Saúde é uma boa sugestão.


Sobre o sofrimento associado ao contexto atual, por mais que todo mundo esteja tendo dificuldades para lidar com as incertezas, a angústia nas pessoas com TOC atinge um outro nível. Ela pode ser tão intensa a ponto de desencadear pensamentos sobre suicídio, especialmente naqueles com obsessões graves, com outros transtornos mentais, com algum familiar doente por causa do novo coronavírus ou que estejam se sentindo mais aflitos com a quarentena e o isolamento físico. Num extremo, ainda que a pessoa esteja em grande sofrimento, ela pode não estabelecer nenhuma crítica sobre a irracionalidade ou o excesso de suas obsessões e compulsões. Além disso, devemos lembrar que as preocupações podem não se restringir à Covid-19, mas se estender por exemplo a infecções sexualmente transmissíveis ou resistentes a antibióticos. No caso das crianças, pode haver um aumento na irritabilidade e agressividade.


Esse sofrimento pode afetar não só a pessoa com um possível diagnóstico de TOC, mas também seus familiares. Inclusive, o estresse e a sobrecarga desses familiares podem ser mais um parâmetro para ajudar a distinguir uma situação normal (ainda que excessiva) de uma patológica. No TOC, é mais provável haver um impacto nas relações, com aumento nos conflitos familiares.


Quanto à interferência na vida do indivíduo, as preocupações com contaminação e medidas de limpeza podem trazer comportamentos de alto risco, como lavar as mãos com água muito quente ou produtos abrasivos. Alguns pacientes, na dúvida sobre se a comida em casa estaria contaminada, podem jogar tudo fora e mesmo ficar completamente em jejum. Eles também podem seguir à risca a recomendação de distanciamento físico e deixar de lado até as atividades essenciais, como fazer compras de supermercado. Pode haver um comprometimento grave das mãos, com rachaduras e sangramentos. Também pode ser necessário intervir se a pessoa fala com frequência sobre o medo de contaminar-se, ou se está com o sono alterado.


Respondendo então à pergunta do título: não, não estamos todos com TOC de limpeza. Como vimos, existem algumas situações, mais extremas, em que é mais clara a possibilidade de um transtorno, mas provavelmente vamos lidar com vários outros casos em que a incerteza persiste. Na dúvida, para ajudar a definir o que é razoável e o que é exagero, o melhor é procurar orientação profissional.

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