O estudo do DNA pode ajudar a escolher o melhor antidepressivo?


Duas pessoas podem ter efeitos diferentes ao tomar o mesmo medicamento. Ainda que seus diagnósticos sejam iguais – por exemplo, depressão –, uma pode melhorar com o tratamento e não ter nenhum efeito colateral, enquanto a outra, ainda que não sofra com esses efeitos, pode também não apresentar qualquer resposta terapêutica. Outra possibilidade: uma pode melhorar, ao mesmo tempo em que apresenta efeitos colaterais intoleráveis (levando à interrupção do tratamento), e a outra pode somente apresentar efeitos colaterais, sem ter melhora alguma (o pior cenário possível). E o que explica essas diferenças?


Uma das explicações está na genética. Não à toa, tem havido um interesse crescente no estudo do DNA dos indivíduos para determinar a chance de melhora (ou de aparecimento de efeitos colaterais) com um determinado medicamento. O ramo da ciência que se ocupa disso é a Farmacogenética, que tem ganhado cada vez mais espaço em diversas áreas médicas, inclusive na Psiquiatria. Já existem no mercado opções de testes farmacogenéticos que avaliam um número variável de genes e prometem, por exemplo, ajudar na escolha do melhor antidepressivo para uma determinada pessoa. Mas será que todo mundo deveria fazer algum desses testes?


A resposta mais direta é não. Até o momento, a principal indicação para os testes farmacogenéticos são os casos em que tudo foi feito, mas nada funcionou. E para dizer que um medicamento não funcionou, é preciso que ele tenha sido usado na dose adequada e pelo tempo adequado. Infelizmente, é comum que haja trocas no tratamento antes que essas condições tenham sido satisfeitas, e um medicamento que poderia funcionar em dose mais alta ou com uso por mais algum tempo é logo descartado. Um dos motivos para que isso aconteça é que, infelizmente, a maioria dos tratamentos em Psiquiatria de fato leva algumas semanas para começar a produzir alguma melhora.


Outros fatores também podem fazer com que um medicamento não funcione como esperado. Entre eles, podemos citar a idade, o gênero, o peso, a saúde do fígado e dos rins, a interação com outros medicamentos, os hábitos de vida (como o tabagismo, que pode acelerar o metabolismo de vários medicamentos), o estado nutricional, a presença ou não de gravidez... Portanto, antes de partir para um teste farmacogenético, é preciso considerar todos esses fatores.


Além disso, das dezenas de genes que podem ser avaliados nos testes hoje disponíveis, só pouco mais de 20 têm sua utilidade comprovada por boas evidências científicas. Testar uma grande quantidade de genes pode trazer um custo alto, sem agregar muita informação relevante. O ideal seria poder escolher os genes que quero testar, ou seja, apenas os genes que influenciam no efeito da medicação que estou considerando, o que tornaria os testes mais acessíveis.


Também é importante dizer que esses testes não dão diagnóstico de qualquer transtorno mental (nem podem prever sua ocorrência no futuro). Cada um desses transtornos tem no mínimo de 50 a 100 genes associados, que se repetem em diferentes condições. Isso mostra que a base genética dos transtornos mentais é semelhante, mas sua interação com fatores ambientais (como dieta e hormônios) é que vai determinar qual transtorno específico irá surgir. Assim, não dá para dizer que uma pessoa tem depressão, ansiedade ou transtorno bipolar com base em um teste genético. Esses diagnósticos são essencialmente clínicos, ou seja, baseiam-se nos sintomas do paciente, na percepção que ele e as pessoas próximas têm de seu quadro e na avaliação do psiquiatra.


Feitas essas considerações, pode-se dizer que, ainda que os testes genéticos não possam definir qual o melhor tratamento, eles dão uma ideia de qual tratamento tem mais chance de efeitos negativos. Eles podem informar, caso eu use uma determinada medicação, se eu tenho ou não algum gene conhecido que atrapalha o efeito dessa medicação. Por exemplo, sabe-se que a alteração genética em uma proteína conhecida como CYP2C19 pode levar ao acúmulo de alguns tipos de antidepressivos e favorecer o aparecimento de arritmias. Ainda assim, o teste farmacogenético não é fundamental nesses casos: pode-se monitorar o uso de tais antidepressivos com a realização de um eletrocardiograma de tempos em tempos.


Concluindo, nenhum teste farmacogenético vai substituir a avaliação de um médico psiquiatra. Não são os exames – sejam testes farmacognéticos ou exames mais corriqueiros, como hemograma – que vão definir qual o tratamento indicado; essa é uma decisão compartilhada entre médico e paciente. Eles podem apenas ajudar a escolher, dentro os caminhos possíveis, o que é menos tortuoso.

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