O papel da Acupuntura na enxaqueca



Pessoas com enxaqueca (ou migrânea) têm ataques repetidos de dor de cabeça que duram de quatro a 72 horas. Normalmente, a dor é intensa, pulsátil, sentida em um dos lados da cabeça e acompanhada de náusea, vômitos, fotofobia (aversão à claridade) ou fonofobia (aversão aos sons). É uma condição comum, afetando 15 a 20% da população ao longo da vida.


Para a maioria das pessoas, é suficiente o tratamento das crises de dor de cabeça. No entanto, uma minoria relevante precisa de intervenções que evitem essas crises, seja porque suas dores de cabeça são frequentes, seja porque as dores são mal controladas com analgésicos. Várias medicações são úteis nesse sentido, mas não são tão bem aceitas por todas as pessoas por causa de seus efeitos adversos. Assim, são desejáveis opções de tratamento que sejam efetivas e com baixo risco de efeitos adversos; daí o interesse na Acupuntura.


A Acupuntura já é usada com frequência para tratar diversas formas de dores de cabeça, e em especial a enxaqueca. Nos Estados Unidos, uma pesquisa viu que 9,9% dos pacientes de Acupuntura haviam recorrido a ela para esse tipo de tratamento. Hoje sabemos que a Acupuntura promove mudanças neurofisiológicas no organismo que levam ao controle da dor. Do ponto de vista da Medicina Tradicional Chinesa, o objetivo de seu uso é restaurar o equilíbrio do organismo internamente e em sua relação com o meio externo. Mas independentemente de como a Acupuntura funcionaria no tratamento da enxaqueca, muitos estudos têm sido publicados a respeito de sua efetividade na redução do número de crises da doença.


Uma revisão da Cochrane (já falamos da Cochrane neste post) avaliou 22 desses estudos e trouxe resultados interessantes. De cada 100 pessoas em quem o tratamento com Acupuntura foi acrescentado ao uso de analgésicos durante a crise de enxaqueca, 41 tiveram redução da frequência das crises no mínimo pela metade, e esse efeito ainda persistia seis meses após o fim do tratamento. Em contrapartida, a frequência das crises caiu pela metade em apenas 17 de cada 100 pessoas que receberam só analgésicos.


A revisão da Cochrane também avaliou estudos que compararam a Acupuntura com sua versão fake, chamada tecnicamente de Acupuntura sham, em que as agulhas são inseridas fora dos locais corretos ou não penetram na pele. A frequência das dores de cabeça caiu pela metade em 50 de cada 100 pessoas tratadas com Acupuntura (contra 41 de cada 100 pessoas submetidas a Acupuntura sham), e esse efeito ainda estava presente mesmo após seis meses.


Por fim, também foram revisados estudos comparando a Acupuntura com medicações que sabidamente reduzem a frequência das crises de enxaqueca. Após três meses, a frequência diminuiu pela metade em 57 de cada 100 pessoas submetidas à Acupuntura, e em 46 de cada 100 pessoas que receberam medicação. Após seis meses, esses números aumentaram para 59 e 54 de cada 100 pessoas, respectivamente. O grupo tratado com Acupuntura teve menos efeitos adversos que o grupo que fez uso de medicação.


Uma forma de resumir esses achados seria em termos do número de dias em que a pessoa tem crises de enxaqueca no mês. Considerando que, sem tratamento, elas aconteçam em doze dias no mês, haveria uma redução para dez dias com o uso isolado de analgésicos durante as crises; para oito dias com a Acupuntura sham ou com o uso de medicação; e para sete dias com a Acupuntura.


Esses resultados se refletem nas diretrizes do Instituto Nacional para Excelência em Saúde e Cuidados (NICE, na sigla em inglês), órgão público do Departamento de Saúde do Reino Unido. Elas sugerem considerar um tratamento com, no mínimo, dez sessões de Acupuntura, ao longo de cinco a oito semanas, para prevenir crises de enxaqueca com ou sem aura (aura é um sintoma ou sensação que acontece antes ou durante uma crise de enxaqueca e comumente se manifesta como alteração da visão, com luzes piscando, pontos brilhantes ou linhas em zigue-zague). Um dado interessante é que essas mesmas diretrizes citam a Acupuntura como único tratamento preventivo para a cefaleia tensional (o tipo de dor de cabeça mais comum). Nesse caso, também se recomendam dez sessões em cinco a oito semanas.


Assim, a conclusão é que a Acupuntura é, no mínimo, tão efetiva como o uso de medicamentos para redução do número de episódios de enxaqueca. É uma opção valiosa para as pessoas com crises frequentes ou mal controladas com analgésicos e que apresentam efeitos colaterais com as medicações disponíveis, ou que preferem evitá-las.

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